Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010
Christmas time

Os jasmis estão em flor, o perfume espalha-se rapidamente pela cidade. Graças aos céus esta cidade está cheia de jasmineiros! E, portanto, se os jasmins estão em flor, já é Natal! Havia um jasmineiro enorme na casa onde cresci e todo ano por volta dessa época o perfume enchia o ar, subia pela sacada e invadia a sala. Para mim, esse perfume sempre vai estar associado ao Natal. Era assim: quando as primeiras flores se abriam, enfeitávamos a árvore. Há dois dias ganhei jasmins. Minha mãe fez uma arte e arrancou-os de um jasmineiro enorme plantado na calçada diante de uma escola aqui perto de casa. Bem, eu sei que é feio roubar flores dos outros, mas o que posso fazer se não há jasmins para vender nas floriculturas? Tenho dois pequenininhos na sacada, mas são muito novos para dar flor... e não vou ficar sem jasmins, oras! Qual a graça de enfeitar a casa se não se pode sentir aquele perfume delcicioso enquanto se faz isso?

 

Jasmins à parte, este ano vou fazer uma revolução natalina cá por casa! Andei a fazer enfeites eu mesma. Estes de loja não têm graça. Vou enfeitar a árvore apenas com coisinhas made in home. Está quase tudo pronto e a tradicional faxina de final de ano está em andamento. Até o final da semana a decoração deve estar toda no lugar.Decididamente, adoro esta época do ano! Portanto, se alguém da minha família ler isso e estiver preparando o tradicional escândalo natalino de sempre - existem parentes imbecis que nasceram para estragar as festas de fim de ano dos outros, eu tenho montes deles -, desista. Este ano, nada no mundo estraga meu Natal! Nem as confusões do Enem, nem uma possível bomba no vestibular, nem a morte da bezerra que se perdeu no brejo.

 

 

E eis que estava eu, em plena madrugada, a montar uma apresentação de slides sobre o Advento, as tradições natalinas e receitas típicas, quando deparei-me com esta maravilha da culinária alemã:

 

 


Não são lindas? Estas deliciosas estrelinhas de canela chamam-se Zimststerme. Que vontade danada de comer um pote cheio delas! E o pior de tudo: a receita é facílima, mas onde vou arranjar avelãs ou amêndoas por cá a esta altura? Estas coisas só começam a chegar aos super-mercados pela metade de dezembro... juro que dá-me vontade de chorar!

 

Este glacê branquinho e brilhante ali em cima lembra-me das bolachinhas da bisa Emma. Minha avó sabia fazer e fazia aos montes, aquelas bolachas grandonas de Natal, cobertas com glacê e confeitos coloridos, quem é descendente de alemães ou italianos ou simplesmente vive no sul do Brasil sabe bem do que se trata. Acontece que aquela egoísta dos infernos nunca me deu uma sequer... eu precisava roubar da janela enquanto elas esfriavam, porque eram sempre feitas especialmente para a peste do meu primo. Sem ressentimentos. Eu achei a receita na internet! Aleluia ao Santo Google que tudo encontra pra gente! E vou me empanturrar delas esse ano. Delas, das estrelinhas de canela, quando chegarem as amêndoas, e dos biscoitos de gengibre! Agora só me faltam as forminhas!

 

As receitas de todas estas delícias poderão ser encontradas em breve no meu blog de artesanatos (afinal, cozinhar é uma arte das mais apuradas): http://borboletas_e_sonhos.blogs.sapo.pt/. Se alguém ler este post e não puder esperar que eu poste as receitas no outro blog, peça por e-mail que eu envio. Agora vou-me ficando por aqui, que já passei da hora. Vou dormir e sonhar com as bolachinhas!

 

Au revoir ^.^


sinto-me:
música: O Holy Night - Celine Dion

publicado por Mi às 04:26
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Domingo, 14 de Novembro de 2010
Consequências e desculpas

Hoje o pessoal da prefeitura começou a espalhar os enfeites de Natal pela cidade. Estamos na metade de novembro e lá se vai mais um ano. O segundo ano que passo longe de uma sala de aula. Sinto uma saudade sem tamanho das aulas, das pilhas de livros para ler, dos fichamentos, dos artigos e até dos estágios, de qualquer coisa que envolva livros, cadernos e fazer algo útil da vida. Ando a fazer algo útil em sentido prático: faço algo que paga minhas contas, pelo menos parte delas. Contudo, não é em absoluto o que quero fazer da vida a longo prazo. Minha paciência com costuras e pontinhos está ao limite.

 

Essa semana fui ver "Comer, Rezar e Amar" no cinema. Não sei até que ponto foi uma boa ideia. Dizem que quando as coisas estão quietas não devemos cutucá-las. É como jogar uma pedra num lago: basta a pedra tocar a superfície da água para que as ondas comecem a bagunçar tudo, elas vão aumentando e aumentando e não há nada que consiga pará-las.

 

Há um ano atrás cá estava eu, feliz e contente no meu empreguinho mais ou menos numa loja de artesanatos. Sério, estava feliz e contente mesmo. Pela primeira vez desde que havia terminado a faculdade. Foi um final de curso bem traumático. Primeiro, paguei todos os meus pecados com o estágio. Não foi uma experiência ruim, só foi desgastante. Ao extremo. A professora era muito exigente - como eu acho que tem que ser, aliás. E eu sou uma maníaca obsessiva que não admite menos que o melhor. Não pretendo ser professora de ensino fundamental e médio se puder evitar, as matérias de didática me enchiam profundamente a paciência, ainda mais quando saíam da nossa realidade deprimente pra utopia de pedagogos que nunca pisaram em uma escola pública brasileira e querem ensinar em pisa a fazer o trabalho direito. É óbvio que não podia dizer isso para a professora. Quase larguei o curso - no último semestre, loucura, eu sei - por conta desse estágio maledetto. Enfim, engoli uma pá e meia de sapos e me saí bem nessa parte, apesar de virar um trapo de gente por conta do desgaste mental que a coisa toda me causou.

 

Aí, quando tudo parecia se ajeitar, meu orientador da monografia sumiu. Brigou com o coordenador do curso e parou de responder os e-mails das orientandas e aparecer na faculdade. Faltava um mês - UM MÊS - pra entregar a monografia e eu ainda estava na introdução porque ele não me dizia se podia continuar ou não. Enfim, continuei por conta própria. Escrevi uma monografia de setenta páginas em quinze dias e não ficou das piores. Foi surreal. Eu dormia três horas por noite amontoada no meio dos livros abertos espalhados pelo meu quarto. Em determinada altura, creio que perdi a noção do que estava fazendo. Na época, depois de revisar o texto e reler, gostei bastante do resultado. Fiquei orgulhosa de ter escrito tudo aquilo sozinha, com minhas próprias ideias e sem os pitacos de um orientador. Foi incrível e eu estava em êxtase de ter conseguido a tempo. Hoje não lembro exatamente do que escrevi. Deve ser trauma pelo que aconteceu depois.

 

O fato é que o orientador continuou sumido. E eu e a minha colega que também era orientanda dele recebemos nota zero porque, segundo o diretor do curso, não havíamos entregado o trabalho. Na última semana de curso eu, que nunca tirei uma nota sequer menor que 8,0 em quatro anos, estava reprovada na disciplina mais importante, o trabalho de conclusão. Pior de tudo: nem era culpa minha. Não há palavras suficientes para expressar a raiva, a decepção, a angústia e todo o resto que eu senti. Afinal, o que eu poderia fazer? Processar a faculdade e demorar anos para receber o diploma enquanto o processo se arrastasse na lesma reumática que é a justiça brasileira? Por fim o orientador apareceu e, sei lá eu como, a monografia foi apresentada e a nota saiu. Sei que o trabalho estava bom, de verdade, mas não sei até que ponto eu mereci a nota que tirei ou ela me foi dada em compensação pelos transtornos.

 

Acho que fiquei desiludida com o mundo acadêmico. Não sei. Foram quinze anos, dos meus vinte e dois, passados em uma sala de aula. E de repente a coisa toda acaba assim desse jeito estranho e desconfortável. Estava em tal estado de nervos na formatura - de gabinete porque demora que vou gastar uma fortuna fazendo festa - que nem tinha noção do que estava acontecendo ao meu redor. A ficha demorou a cair. Que estava acabado. E quando caiu, despencou para o fundo do poço. Passei uns meses sem rumo, sem conseguir ver um livro na frente. E livros são como partes de mim. Nunca vivi sem eles desde que aprendi a ler. Enfiei a cara nas costuras, no artesanato, nos bordados, em qualquer coisa que não me lembrasse dos estudos.

 

Perdi dois anos da minha vida nessa birra de menina teimosa. Perdi a confiança em mim mesma. Não conseguia pegar as coisas da faculdade e organizar minhas leituras pra um possível projeto de mestrado sem lembrar da confusão da monografia e cair no choro. Sei que parece idiota. É idiota, na verdade. Mas, de um jeito que ninguém nunca entendeu - e aqui não estou em absoluto dando uma de adolescente deslocada que ninguém entende - isso me atingiu lá no fundo do meu orgulho, da minha confiança. Meio que derrubou meu mundo. Tem gente que cai na fossa quando termina um relacionamento com alguém que foi especial. Mas alguns nerds surtados afundam quando terminam monografias ou teses de mestrado e doutorado. Um professor meu dizia que pra alguns a monografia é como um parto. A gente cuida dela como se fosse uma criança crescendo, dedica a vida a ela por alguns meses, como se nada mais existisse, e aí quando acaba sobra um vazio difícil de aguentar. E quando se trata de uma traça de biblioteca que nunca ligou pra vida social, que sempre enxergou só livros na frente, isso toma proporções catastróficas.

 

E aí a chance da gente fazer - com o perdão da palavra - uma merda sem tamanho é enorme. No meu caso, a merda me custou dois anos.

 

Estava eu quieta no meu canto, me achando a última pulga da mosca do besouro da caca do elefante, com a cara enfiada na máquina de costura, quando me apareceu um emprego meio que do nada. E eu aceitei. Mudei de cidade - essa foi a melhor coisa que já fiz na vida -, e fui trabalhar em uma loja de artesanatos por um salário bem mais ou menos. Meus argumentos pra essa atitude impensada e quase infantil: se for trabalhar numa loja e não em casa vou ter mais tempo livre pra poder voltar a estudar. Mentira! Duas vezes mentira! Primeiro porque eu não consegui mais tempo livre, perdi o pouco tempo livre que tinha e catei uma pilha de sarna pra me coçar. Segundo porque que voltar a estudar, que nada. Acabei é me acomodando e achando a coisa toda ótima. Por uns sete meses. Minha vida era o paraíso até alguém jogar a pedrinha no lago e provocar as primeiras ondas, tímidas, mas suficientes pra começar a bagunça.

 

A dona da loja inventou de me mandar fazer um curso de werbdesigner pra arrumar o site da loja. Pra que ela foi fazer isso? Se soubesse no que ia dar, aposto que teria ficado quieta no canto dela, como eu estava quieta e feliz no meu. Eu tinha um emprego, o salário não era a maravilha que eu pretendia ganhar quando estava na faculdade, minha função não tinha nada a ver com o que eu tinha estudado, mas eu estava fazendo algo útil da vida e estava feliz. Mas como diria meu guru, o doutor House, feliz é estranho. E nunca dura. Pelo menos não quando é construída sobre mentiras e enganos. Ninguém pode ser feliz por muito tempo fazendo algo que bem lá no fundo sabe que não quer. E eu baguncei minha vida toda, até ela deixar de ser minha e passar a ser de uma criatura estranha que eu não conseguia reconhecer.

 

Meu namoro foi pro esapaço com a mudança. Sinto um balde de culpa por isso. A coisa toda foi tão de repente. Eu fui conversar com a dona da loja num dia e no outro já comecei a trabalhar, nem avisei direito. E mudei meio que por conta própria. Acho que a gente não pode fazer isso quando tem um relacionamento sem esperar que dê merda. Fui bem estúpida ao fazer isso. Estúpida com a pessoa que estava comigo, com a minha mãe que ficou com pena porque eu não ia conseguir me sustentar com o salário que ia ganhar e mudou comigo, estúpida comigo mesma e também com todas as outras pessoas que magoei por conta das coisas idiotas que fiz nesses dois anos.

 

Esses dois anos levaram muita coisa que era importante pra mim. Me afastei de amigos que significavam muito pra mim. Deixei de lado coisas que jamais teria deixado se estivesse no meu juízo perfeito. Foi meio que sem querer. Só percebi quando o estrago já estava feito, quando já não conseguia mais me reconhecer nas atitudes que estava tendo. De repente, virei o tipo de pessoa fútil e conformada que sempre detestei. Tem coisas que são como vidro, depois que a gente quebra pode até colar os pedaços, mas nunca mais vai ser igual. Tem coisas que simplesmente não dá pra concertar. Felizmente, outras coisas são tão fortes que não se quebram.

 

Eu caí em mim quando sentei em uma sala de aula outra vez, quando tive textos pra ler, trabalhos pra fazer. Quando tive minha vida de volta. Existem dois tipos básicos de pessoas no mundo: os intelectuais e os que não tem saco ou oportunidade de estudar. Quando um intelectual se conforma em fazer outra coisa da vida, jamais se deve dar livros pra ele, a menos que se queira provocar uma confusão dos infernos. Lá, sentada na sala do curso de web, a ficha finalmente caiu. De verdade, mesmo, mesmo. E eu só conseguia pensar "que merda é essa que eu to fazendo da minha vida?". E esse pensamento enriquecedor não se referia só ao fato de ter largado os estudos e a ideia de voltar a estudar, mas ao todo da merda que eu fiz. Foi a pior fase da minha vida e eu não tinha coragem de contar pra ninguém. O pingo de orgulho que restou me impediu de admitir que tinha feito várias besteiras enormes, uma atrás da outra. Foi aquela velha história de tentar convencer a si mesmo de que tudo estava bem, pensando que isso faria tudo ficar bem de verdade. Se alguém, um dia, por ventura chegar a ler isso, acredite: a história do pensamento positivo é uma fraude descarada. As coisas não ficam bem porque você coloca na cabeça que elas estão bem. A situação só piora, até você não aguentar mais e explodir.

 

Sem maiores efeitos dramáticos, porque já basta de lamúrias neste post, eu vi o fundo do poço do fundo do abismo. Mas algumas histórias - aqui refiro-me a literatura de verdade e a bons filmes e não a livros de auto-ajuda, que também considero uma fraude - dizem que a gente precisa estar bem no fundo pra recuperar o equilíbrio direito e começar a subir.

 

Se o emprego na loja serviu para alguma coisa, além de dar alguma experiência profissional na carteira de trabalho, foi para me ajudar a recuperar a confiança. Nada melhor que elogios para inflar o ego. Fiquei terrivelmente convencida. Mais do que jamais cheguei a ser. E se o curso de web ajudou em alguma coisa, além de dar dicas para deixar este bloguinho mais bonito, foi em me dar coragem de voltar para a sala de aula e fazer o que eu quero fazer da vida: estudar, estudar e estudar!

 

Uma vez traça de biblioteca, sempre traça de biblioteca. Os livros são os amores da minha vida, em um sentido insano que apenas parte da parcela de nerds da população talvez entenda. Seguindo a mesma linha surreal que marca todos os meus escritos, atrevo-me a dizer que não respiro oxigênio, mas sim o ar que se desprende das páginas dos livros, que entra pelas vias respiratórias na forma de palavras e enche os pulmões e o coração de frases e sentido. É isso que eu sou. Minha palavra é esta: livros. Sempre livros. Foi burrice abandoná-los, porque  com eles abandonei a mim mesma e todo o resto desandou.

 

Voltando ao filme que mencionei no começo do post, ele e uma certa conversa que tive transformaram as ondas em tsunami. Percebi que precisava colocar toda essa confusão pra fora, porque senão nunca conseguiria arrumar a bagunça que fiz. Freud dizia que temos que falar sobre o trauma pra nos livrarmos dele. Os psicanalistas atuais dizem que quando falamos é porque já conseguimos superar. Tenho certo receio de psicanalistas e psicólogos, por conta da moda da auto-ajuda e do pensamento positivo que circula por aí, mas talvez eles tenham razão neste ponto. É hora de parar de lamentar o copo meio vazio e olhar para a metade que ainda está cheia.

 

Peço desculpas a todas as pessoas que magoei, a quem disse palavras duras quando não mereciam ouvir e a quem não disse palavra nenhuma quando deveria ter dito. Peço desculpas aos amigos que abandonei sem maiores explicações. Peço desculpas a pessoa que mais amo e agradeço por ter ficado ao meu lado, mesmo quando nem eu mesma me aguentava. Peço desculpas a mim mesma por me ter deixado perder. Não se as pessoas que magoei vão entender, o mesmo desculpar. Quanto a mim, estou tentando desculpar a mim mesma.


sinto-me:
música: Watercolors- Marcelo Cesena

publicado por Mi às 02:14
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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
De música e violinos

Eu ia dormir. Ia mesmo. Mas está um calor dos infernos e estou com vontade de escrever. Quando eu era mais nova costumava ter um diário. Enchia páginas e páginas com palavras, sonhos, desenhos e rabiscos. Enchi dois diários assim. E um monte de agendas. Ainda gosto de ter minha agenda para rabiscar, mas perdi o costume do diário há um tempo. De repente parecia sem noção. Simplesmente parei de escrever. Acho que foi quando fiz meu primeiro livejournal. Isso virou uma verdadeira compulsão. Já foram-se dois livejournals onde não escrevo mais e três blogs que mantenho a duras penas, com longos períodos de silêncio quando não tenho tempo ou vontade de escrever, arrumar fotos e postar. Acho que, no fim das contas, este blog virou meu diário. É meu cantinho favorito de todos os que tenho, principalmente porque sei que absolutamente ninguém vem por cá.

 

Então, estava cá a olhar com cara de boba para uma fotografia que ganhei de presente hoje. Sou eu tocando violino. Numa apresentação da Orquestra em um treatro lotado de gente. Pensei que nunca ia ter coragem de fazer isso na minha vida, mas criei coragem de fazer um monte de coisas depois que comecei a apresentar trabalhos em mostras de iniciação científica na faculdade. E até que saí bem na foto! Vou colocá-la aqui assim que receber as outras fotos e mandar colocar tudo num CD.

 

A apresentação foi dia 24 de outubro. Foi incrível! Principalmente a primeira música, que eu sabia tocar inteira. Foi surreal. O público estava lá, mas não estava. No final, não importava muito. Nem os aplausos, nem os resmungos de meia dúzia de crianças choronas que estavam lá, nem os flashes das câmeras fotográficas. Importava estar lá. Importava sentir as cordas do violino pressionando a ponta dos dedos, sentir a vibração das notas, o som da música. É impossível explicar a sensação dos pedacinhos de nota que saem de cada instrumento se juntando para formar uma música inteira, muito mais, mais concisa e bonita.

 

E de repente, descobri que sei tocar violino. De verdade, mesmo, mesmo. Não só umas notas perdidas, uma música que não parece exatamente como devia ser. De repente, me ouvi tocando um duo do Mazas exatamente como devia soar, sem tirar nem por. De repente, percebi que consigo tocar exercícios inteiros na terceira posição, onde não tem nenhuma faixinha pra indicar o lugar certo das notas. E o mais incrível, consegui tocar algo coerente num violino sem marcação. E foi inexplicável! A sensação é viciante. De repente, percebi que gosto muito disso, com gente olhando ou sem gente olhando.

 

Um dia ainda vou comprar uma réplica de um Guarneri. Era o violino que Paganini usava. E se alguém por acaso ler isso e quiser me dar de presente, vou ficar muito agradecida. É a terceira coisa que eu mais quero na vida. Depois me formar em Biologia e fazer mestrado em Genética e conseguir um emprego com um salário decente. E por salário decente eu entendo algo que seja suficiente para comprar uma réplica de um violino Guarneri.

 

Mas vou dormir. Chega de viajar no chocolate por hoje!


sinto-me:
música: Gypsy - Shakira

publicado por Mi às 04:02
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Aprendi no Enem

São quase duas da manhã e temperatura está chegando perto dos trinta graus. Não há vento, não forte o suficiente para entrar pelas frestas das persianas, fechadas para que os mosquitos não entrem no quarto, atraídos pelas luzes acesas. No fim de semana o tempo estava perfeito. Quase não havia nuvens no céu - um céu de azul vivo, como há muito não se via por estas bandas, diferente do céu pálido, cinzento, protegido por um cobertor de nuvens densas do inverno. Havia vento. Não um vento forte, que bagunça os cabelos, quase arranca as roupas do corpo e irrita profundamente ao jogar cabelos, roupas e poeira nos rostos dos passantes. Uma brisa leve, agradável e fresca. Contudo, eu e mais alguns milhões de otários aspirantes a uma vaga numa universidade federal, a uma bolsa do Prouni ou ao financiamento estudantil (FIES) não pudemos aproveitar estes dois dias magníficos, porque estávamos presos em uma sala de aula fazendo a prova do Enem. E agora querem anular a prova... era o que faltava.

 

Não vou discutir a falta de respeito com os inscritos na prova, nem a falta de bom senso do Inep, que mais uma vez vai prejudicar um bando de gente por causa de sua incapacidade em lidar com a situação. Arrancar os cabelos, xingar, procurar culpados - nada disso vai resolver coisa nenhuma. O jeito é esperar o pessoal lá de cima decidir se vai aplicar de novo a prova de sábado para os prejudicados do caderno amarelo, anular a prova de todo mundo ou simplesmente não fazer nada. Enquanto isso, achei uma comunidade deveras interessante no Orkut. Dizem que rir é o melhor remédio e esta é das boas!

 

Nome da comunidade: Aprendi no Enem

 

Descrição: Aprendi No Enem que

Feijão tropeiro é decisivo para seu futuro profissional.

Existem as questões fáceis, as pra retardados e as de química.

Se você colocar as coordenadas geograficas numa garrafa e jogá-la ao mar, você recebe uma foto de um garoto.
da Noruega!

Química não se aprende, química se chuta.

Não se deve colocar uma estátua no fundo de uma piscina, porque depois dá muito trabalho pra tirar.

Errar é humano mas errar varias vezes é INEP

Depois da 40ª questão você já tá vendo Tiradentes fazendo feijão tropeiro com a ética pra Napoleão não fuder Júpiter

Que prova de Natureza e suas tecnologias necessita de rascunho mas a de matemática não!

Que mulheres que jogam futebol, não podem ter filhos.

 

Acreditem ou não, é a pura verdade! Quem fez as provas sabe que é! Parabéns ao criador da comunidade!


sinto-me:
música: Nothin'on you - B.O.B. feat Bruno Mars

publicado por Mi às 03:32
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Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
O 20 de Setembro da minha sacada - parte II

Como prometido, cá estou de volta com mais fotos do desfile de 20 de setembro! Vamos começar com a parte que diz respeito ao Movimento Tradicionalista.Os CTG's da cidade capricharam nos vestidos de prenda das moças (embora o conceito atual de moda destas entidades não tenha a ver em absoluto com o que se usava lá pelos idos de 1800) e no traje dos "gaúchos". Não vou discutir o conceito original de gaúcho, o ladrão de gado, marginal andante dos campos, que também perambulava pelo Uruguai e a Argentina, mas que por lá ainda não foi transformado, a custa de invencionices de peões de fim de semana, no herói regional que por cá faz tanto sucesso. Basta dizer que sua vestimenta não era a típica usada na região, não pela absoluta maioria dos homens e rapazes. Todos por cá vestiam-se como era decente vestir-se na época: à melhor moda européia que se pudesse importar, ou então com os trapos de algodão rude destinados aos escravos e peões de verdade. Grupos de cavalarianos e de laçadores não faltaram. Foram quase 90 minutos de cavaleiros passeando pela principal avenida da cidade. Deu-me pena dos cavalos trotando no chão duro do asfalto. E das pessoas que tiveram que limpar a sujeira depois. Enfim, sem mais comentários a respeito do movimento, e seu estranho senso de verdade histórica e tradição, pois em boca fechada não entra mosca, vamos às fotos!

 

Cá estão os "gaúchos" a segurar as bandeiras.

 

Prendas e gaúchos de CTG.

E os fotógrafos fazem festa ao fundo.

 

Segundo o MTG, os ideais farroupilhas.

 

Enfim, os moços à cavalo.

Temos de concordar que fazem uma bela figura.

 

Mais moços a cavalo.

 

Este nosso Rio Grande é mesmo uma coisa extraordinária em alguns sentidos!

Cá vemos um representante da etnia judaica num piquete de laçadores.

Há de tudo nesta cidade, italianos, alemães, poloneses, africanos, judeus, romenos e etc.

É um dos poucos lugares onde toda essa gente convive em paz, trocando apertos de mão e

dividindo o mate ao invés de atirar uns nos outros e trocar xingamentos.

Nesses momentos, adoro viver por cá!

 

Departamento tradicionalista do maior hipermercado da região:

a propaganda é a alma do negócio, vale tudo para aparecer no desfile!

 

Esta foi a parte oficial do desfile. Fotos iguais a estas que apareceram até agora todo mundo que estava lá com uma câmera têm. Esta traça que vos escreve, com sua obsessão compulsiva por fotografia, cansada de tanto ver cavalos e vestidos de prenda passando, resolveu dirigir um pouco a lente da câmera para os bastidores e os espectadores do desfile. E cá estão algumas imagens deveras interessantes!

 

Em ano de eleição, os políticos e seus cabos eleitorais não dão folga.

Nem em dia de desfile.

 

Tédio? Imagina!

 

Vendedor de quinquilharias.

Sempre presente.

 

Vista geral da avenida. Havia bastante gente assistindo.

 

Passeando com o cachorro e fazendo uma pausa para ver o desfile.

O cachorro é uma graça!

 

Os espectadores dividem a calçada com as placas dos políticos.

 

Vivendo passando de bicicleta pela calçada sem nem olhar pro desfile.

 

Elas trouxeram a pipoca, mas chegaram quase no final da festa.

 

Mais espectadores.

Não sei porque, mas adorei esta foto.

 

E assim de repente, o desfile acabou!

 

Pessoas indo embora e pessoal da TV desmontando as câmeras.

Pois é, o pessoal da TV filmou.

E passou no noticiário da noite, como era de se esperar.

 

Estas foram algumas das 136 fotografias que esta doida tirou durante o desfile. Espero que os leitores desse blog, se é que ainda existe algum, tenham gostado deste pedacinho peculiar do meu Rio Grande do Sul.

 

Por hoje é só!

 

Au revoir.


sinto-me:
música: Uma voz no vento - Leila Pinheiro

publicado por Mi às 03:44
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010
O 20 de Setembro da minha sacada

Em 20 de setembro de 1835 as tropas farroupilhas entraram em Porto Alegre, dando início à Revolução Farroupilha. A despeito das histórias idealistas que circulam por aí, a confusão toda começou porque um bando de fazendeiros podres de ricos indignou-se com um imposto cobrado sobre o charque, principal fonte de sua fortuna. Foi uma revolta conduzida pela elite da província que tomou proporções inimagináveis graças a uma série de atitudes impulsivas e que acabou se tornando, décadas depois, símbolo de muitas coisas que sequer passaram pela cabeça daqueles que lutaram naquela época. Não vou discutir os méritos e desméritos do conflito, nem o famigerado Movimento Tradicionalista Gaúcho, que surgiu na década de 1960, montou uma colcha de retalhos com elementos indígenas, portugueses e argentinos, costurando-os com um fio de invencionices que nunca existiram na prática e passou a enaltecer o 20 de setembro e os heróis do movimento farroupilha. Enquanto historiadora consciente de que jamais devemos alterar o passado, mas sim estudá-lo da forma mais objetiva possível, considero tal movimento como a farsa mais bem montada da história.

 

Pergunto-me como aqueles que se intitulam gaúchos são capazes de reverenciar tanto uma revolta que  começou por motivos mesquinhos de uma elite opressora, tentou separar o estado do restante do país e que fracassou miseravelmente em seu intento. Que heróis foram estes que saquearam seu próprio povo para alimentar as tropas de uma revolução que ninguém queria? Que ideal de liberdade foi este que jamais falou abertamente em abolir a escravidão (sabemos que alguns dos generais eram abolicionistas, mas eles não expressavam em absoluto a opinião da maioria)? E que estado é este que dá mais valor a uma revolta separatista do que ao dia da independência de seu país? Pois cá no Rio Grande do Sul os desfiles de 7 de setembro acontecem às 8:30 da manhã, apenas as escolas desfilam, talvez alguns militares e a banda da cidade, mas quase ninguém assiste. Já o desfile do 20 de setembro é um acontecimento, percedido por quinze dias de comemorações, que envolve inúmeras entidades e atrai uma multidão para assisti-lo.

 

Resgatar a tradição é importante. Mas resgatar com veracidade. O movimento tradicionalista que vemos hoje é muito mais uma instituição sectária e fanática que qualquer outra coisa. Seus criadores torceram e retorceram os fatos e hoje fazem regras que teriam revoltado o estômago dos moradores da província nos idos de 1800.

 

A despeito de tudo isso, se jogarmos fora toda a palhaçada, ainda podemos tirar disso tudo alguma beleza e utilidade. Para quem vive nas cidades, com todo o conforto, é interessante mostrar que o mundo nem sempre teve luz elétrica, ar condicionado e televisão. É interessante mostrar que um dia as pessoas andavam por aí a cavalo, que não existiam automóveis e que a divesão de todos era dançar e ouvir histórias ao redor do fogo nas noites frias de inverno. Por isso, pelas gotas de verdade que pingam da enorme geleira de invencionices do movimento tradicionalista, é que deixo aqui algumas fotos do desfile do 20 de setembro, tiradas da saca do meu apartamento no oitavo andar. As pessoas quase parecem formigas lá embaixo.

 

A banda e os militares sempre vem na frente. Por que será?

 

Gotas de verdade:

 

Na casa dos estancieiros não havia o luxo todo que se imagina. Eram casas de campo simples, com móveis rústicos em sua maioria, onde as mulheres se ocupavam dos trabalhos domésticos e os homens da administração da fazenda. Costuras e brodados eram trabalhos de grande importância, pois não havia lojas que vendessem roupas prontas, tudo tinha que ser feito em casa. As colchas de retalhos eram muito populares, pois assim se aproveitavam os restos de tecidos que já não podiam ser usados em outra coisa. O chimarrão era uma bebida típica de toda a região sul da América do Sul, legado dos indígenas que aqui viviam antes de nós.

 

O fogão a lenha, os fornos de barro para assar o pão e as lareiras e braseiros eram elementos sempre presentes nas casas, única forma de amenizar um pouco o frio do inverno, que pode chegar a alguns graus negativos. O pilão também era um elemento típico das fazendas, tanto para socar o milho e o trigo para fazer a farinha quanto para socar as folhas de erva-mate e transformá-las no pó que vai na cuia para fazer o chimarrão.

 

Detalhe da imagem anterior: a vó faz tricô sentada perto do fogo, o moço de costas corta a lenha para o fogão e as duas moças preparam um doce de fruta. As compotas, geléias e outros doces que podem ser estocados são bastante típicos aqui da região. É um costume que veio dos europeus, esse de fazer doces durante a estação das frutas para guardá-los para os meses de inverno.

 

A tosquia das ovelhas é feita nos meses de novembro a janeiro, durante o verão para que a lã cresça novamente para esquentar os animais durante o inverno. Por aqui também se usavam cães pastores para auxiliar os peões das fazendas a guardar o rebanho antes que se começasse a cercar os campos. As ovelhas não são uma graça? Adoro ovelhas!

 

A religiosidade sempre foi forte por aqui, até nos dias de hoje. Cá nesta cidade são poucos os que passam pela catedral sem fazer o sinal da cruz e são milhares aqueles que acompanham as romarias, mesmo com tempo ruim. Temos um pouco de tudo: católicos, luteranos, calvinistas, anglicanos, alguns judeus e muitos, muitos, muitos mesmo evangélicos de praticamente todas as vertentes possíveis (mas estes últimos só há pouco que invadiram o cenário). Na foto, padre benzendo os fiéis na missa.

 

Negrinho do Pastoreio: mistura de lenda africada e cristã, do século XIX, muito popular no sul do Brasil e no Uruguai. Havia uma estancieira muito malvada que num dia de frio mandou um negrinho pastorear seus animais. No final do dia, quando o negrinho voltou, a dona deu falta de um animal e castigou o menino com chicotadas, mando-o encontrar o animal que havia perdido. O negrinho o encontrou, mas o animal fugiu de novo. Quando voltou à estância, o negrinho foi novamente chicoteado e a dona o colocou nu sobre um formigueiro, para castigá-lo por ter perdido o animal uma segunda vez. No dia seguinte, quando ela foi ver o que acontecera com menino, ele estava em pé ao lado do formigueiro, com a Virgem Maria  e os animais ao seu lado e sem nenhuma ferida. A estancieira pediu perdão, mas o negrinho não lhe respondeu e foi embora com os animais. Desde então, sempre que alguém perde alguma coisa reza para o negrinho e lhe acende uma vela e ele encontra o objeto e devolve à pessoa.

 

Truco: jogo de cartas que era inicialmente típico dos homens rudes do campo, já há tempos é febre entre os adolescentes cá do sul, que o jogam inclusive na sala de aula.

 

Quando não havia rádio, televisão ou coisa que o valha, as festas sempre tinham música ao vivo para que os convidados pudessem ouvir e dançar. O churrasco estava sempre presente, afinal em casa de fazenda não há nada que esteja mais à mão para servir do que carne. Cá no sul não temos grandes frescuras. Nosso churrasco é de verdade, pedaços suculentos de carne e linguicinhas assados na brasa e servidos em pedaços para os convidados. Há quem goste de comer com a mão, há quem goste de palitinhos, há quem prefira pratos com faca e garfo, mas ninguém discorda de que carne assada na brasa, servida com uma bela macarronada e uma deliciosa maionese é o melhor almoço de domingo do mundo. Eu cá nunca comi churrasco igual, em lugar algum. E há quem diga (principalmente uns paulistas que nunca viram uma churrasqueira de verdade na vida) que bifes de hamburger e salsichas de cachorro quente no meio de um pãozinho são churrasco! Nada contra o churrasco deles, mas ainda prefiro o nosso.

 

Ipê amarelo, o símbolo oficial da nossa cidade!

 

Por hoje é só pessoal! Preciso estudar e tenho umas costuras para fazer. O Natal está chegando e já tenho encomendas para dar conta. Em breve apareço por aqui com mais algumas fotos do desfile.

 

Au revoir!


sinto-me:
música: Airplanes - BoB ft. Haley Williams

publicado por Mi às 16:32
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Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010
Finalmente, Alice!

Há umas semanas, entre ventos frios e um céu encoberto por uma colcha algodoada de nuvens, as madressilvas se cobriram de flores. O ar ficou repleto do perfume delas e das flores das laranjeiras que adiantaram-se este ano. Quando eu era pequena, lembro-me de que eram as ameixas que floresciam no inverno, bem no comecinho. Em julho estávamos subindo em árvores e comendo as frutas amarelinhas e gorduchas recém arrancadas dos galhos. As laranjas floresciam na primavera e em novembro é que já podia colher algumas frutas e fazer um bom suco. Agora é setembro, as ameixas estão maduras e as laranjeira já tem frutinhas diminutas, do tamanho de botões de roupas de bebê.

 

Em junho - ou julho, não estou a recordar-me exatamente - fui ao cinema pela primeira vez em muitos anos, para ver Alice no País das Maravilhas. Tim Bourton é meu diretor favorito e fez um excelente trabalho com a história, digam o que disserem a respeito dela. Johny Deep é um dos atores mais fantásticos do cinema atual. Adoro cada um dos filmes dele. E a Mia Wasijowska ficou um doce como Alice. Assisti ao filme dublado numa sessão conturbada pelo protesto de mães indignadas, já que vendeu-se um número de ingressos maior que o número de poltronas e algumas crianças ficaram em pé. Disso depreende-se que pouca coisa das falas ou da trilha sonora chegou-me aos ouvidos, já que sentei-me na última fileira por pura falta de opção.

 

Mas as imagens foram incríveis. Elas sempre são quando se junta fantasia, contos de fadas e Tim Bourton. Ele tem um jeito de fazer as coisas ao qual não cabe explicação. Os efeitos foram incríveis, desde a lagarta azul até o monstro medonho que a Alice derrotou. Confesso, com certa dor na consciência porque sou apaixonada pelo livro do Loius Carroll, que empolguei-me mais com a versão do Tim Bourton que com a original. Contudo, ambas têm seus pontos fortes e não trocaria uma por outra. Louis Carroll lidou com a inocência, com um conto feito para uma menina de cinco anos que nos encanta e nos faz sonhar com as coisas mais loucas, como portinhas secretas em buracos de árvore, coelhos de colete e relógio e lagartas  azuis fumando narguilé. Tim Bourton adicionou umas pitadas a mais de aventura, e (aqui os moralistas desocupados podem atirar-me tomates podres) um toque de romance. Ou fui só eu que notei o clima entre a Alice e o Chapeleiro? Podia jurar que a despedida deles acabaria em beijo. E gostaria que tivesse sido assim, afinal a Alice é uma moça linda, adorável, com um jeito meio rebelde ao qual não se pode resistir. A menina é um doce, até mesmo quando tenta ser azeda.

 

O País das Maravilhas é um espetáculo à parte. Adorei o clima sombrio, o céu cinzento e o verde escuro das folhas contrastando com as flores coloridas. Todo ele é um mundo de contrastes. Contrastes de cores, dos castelos das rainhas, do mundo onde Alice vive e daquele que se forma em seus sonhos. Os sonhos são a melhor parte, porque na história não são sonhos, são o outro lado da realidade da Alice.

 

Os personagens estavam fantásticos! O momento mais impagável do filme foi quando a Rainha Vermelha gritou a plenos pulmões pra trazerem um porco e ofereceu um à Alice. Imaginei de tudo, menos que ela ia acomodar os dois pés em cima do pobre bicho. O Valete, com aquela pinta de vilão também estava ótimo. E a lagarta azul, e o gato de Chesire (eu quero um gato daqueles pra mim). O Chapeleiro do Johny também só merece elogios. E ele deu em cima da Alice sim, que eu vi! Torci para que os dois ficassem juntos e ainda acho que a Alice vai se encher do mundinho dela e voltar pro Chapeleiro.

 

Idéias malucas à parte, não gostei da Rainha Branca. Há algo profundamente errado com ela. Ela com aquele jeito de boa moça - boa demais para ser verdadeira - não me convenceu. A Rainha Vermelha está muito melhor, com todas as suas falhas e manias e carências. Ela é o que ela é, o tempo todo. A Rainha Branca em algumas horas parece deixar cair a máscara, como quando ela mistura aquele negócio medonho que dá pra Alice beber e voltar ao tamanho normal, ou quando empurra a Alice sem dó nem piedade pra enfrentar aquela criatura. Foi manipulação descarada com a Alice aquela apelação dela na hora em que mandou a Alice pro combate. Digam o que disserem, minha opinião pessoal é a mesma do doutor House: não existe gente tão boazinha assim no mundo. A mulher é uma sonsa, fingida, manipuladora com o maior jeito de psicopata.

 

Enfim, o filme é tudo o que se possa dizer de bom. É mágico, é fofo, é empolgante, é emocionante, é sensacional. Vale a pena assistir, principalmente legendado porque o sotaque britânico do pessoal é uma coisa linda de se ouvir. E é o Alan Rickman que dubla a lagarta *momento fã empolgada*.

 

Se existissem no mundo mais pessoas capazes de sonhar com coelhos de colete e relógio e lagartas azuis, capazes de pensar em pintar rosas brancas de vermelho ao invés de arrancá-las porque não deveriam ser desta cor e castigar os jardineiros que as plantaram por engano, com certeza viveríamos em lugar melhor e mais doce. Não é moral da história, é só uma constatação. Pessoas que conseguem sonhar apesar de tudo, mesmo quando a carteira está vazia e a despensa só tem pó, que não se vendem diante das dificuldades é que fazem a raça humana valer a pena. Sonhar é essencial, mais essencial do dinheiro, comida ou qualquer outra. E falo com conhecimento de causa.

 

Pelo que deu para perceber, a família da Alice estava numa situação bem ruim. Apesar disso, ela preferiu seguir o coelho à aceitar o pedido de casamento do imbecil podre de rico que arranjaram pra ela. E encontrou uma saída para a situação toda justamente em sonhos malucos pelos quais, aparentemente, ninguém daria um vintém furado. Não se trata de ser bonzinho o tempo todo, nem de reclamar o tempo todo. Trata-se de sonhar, mesmo quando parece que só temos do que reclamar.

 

Para encerrar, um trechinho em que o pai da Alice fala a coisa mais legal do filme:

 

Alice - Acha que estou enlouquecendo?

 

Pai - Acho que sim. Você está louca, maluca, perdeu a razão. Mas vou te contar um segredo. As melhores pessoas são loucas.

  

   Título original: Alice in Wonderland

Direção: Tim Bourton

Ano: 2010


sinto-me:
música: Alice - Avril Lavigne

publicado por Mi às 04:35
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Quarta-feira, 23 de Junho de 2010
Watercolors (filme de 2008)

Há dias estou a enrolar com um post sobre o filme Alice, mais uma das obras de arte do meu diretor favorito no mundo todo Tim Bourton. Hoje vinha cá para pôr fim à enrolação, mas acabei por encontrar uma pérola cinematográfica que merece prioridade. Encontrei por acaso, como geralmente acontece com os filmes que valem à pena. Com efeito, duvido que mais de meia dúzia de pessoas nesse nosso país inacreditável tenham ouvido falar dele. Trata-se de um filme de David Oliveras, de 2008, chamado Watercolors. Tem uma trilha sonora linda, quase toda composta por canções ao piano com notas que parecem gotas de chuva caindo contra o vidro de uma janela, de um jeito terno, doce, suave. Esse é o clima do filme até a metade, quando as coisas começam de fato a desabar. Então a tensão aumenta até ficar insuportável para se suavizar novamente no final. Sim, apesar de não ser exatamente um conto de fadas, esse filme tem um final feliz.

 

Confesso que fui atrás do filme por conta de um vídeo que vi no youtube, depois de revirar a internet atrás de notícias da bendita história e não ter muito sucesso. Caí de amores pela trilha sonora. É o tipo de coisa que eu ficaria exultante em tocar ao piano se conseguisse encontrar a partitura em algum lugar. Não sabia direito qual era a história e para aqueles que por acaso toparem com Watercolors por aí e, como eu, quiserem saber mais a respeito e não encontrarem informações decentes em lugar algum, aqui vai um resumo. Quem prefere surpresas ou se incomoda com o tema do qual o filme trata, por favor pegue a enxada e tome o caminho da roça porque não vou aturar mais e-mails mal-educados me enchendo a paciência. Este blog é contra qualquer tipo de preconceito, defende a igualdade incondicional de todos os seres humanos e, embora respeite a liberdade de expressão acima de tudo, também merece certo respeito de seus leitores. Contudo, se você é uma pessoa de mente aberta e não se importa de saber o final de um filme antes de vê-lo, siga em frente e boa leitura!

 

Watercolors começa em uma galeria de arte, na exposição de um jovem pintor chamado Danny. Todas as obras importantes dele estão lá, inclusive uns desenhos da época do ensino médio que o rapaz fez de seu primeiro amor. Acontece que seu amor atual não está muito satisfeito e morre de ciúmes dos desenhos e da paixão que Danny parece não ter esquecido. Foi uma história bem ao estilo Romeu e Julieta. Danny vai olhando os quadros e lembrando da época da escola. Assim conhecemos Carter, um garoto bonito, mas meio solitário, que faz parte da equipe de natação do colégio. Carter está correndo o risco de ser expulso da equipe por suas notas baixas em inglês e o pai dele tem a idéia de arrumar um professor particular para ver se ele melhora. Ele vai passar uns fins de semana na casa de Danny e a encontrá-lo depois das aulas.

 

Desde o primeiro encontro dá pra perceber onde a coisa vai chegar. Eles se dão muito bem, a desde o início. É bonitinho porque Carter faz bem o estilo popular da escola, bonitão, esportista, e o Danny é um completo nerd (nada contra nerds, já que eu própria sou nerd e com orgulho), todo controlado e certinho. Carter provoca tanto que Danny acaba confessando que gostaria de dar um beijo nele. É uma cena muito bonita, uma das melhores do filme.

 

Logo depois disso o clima começa a pesar. Carter não quer ser visto na escola com Danny. Ele lida muito mal com a situação toda. Os pais são divorciados, ele vive um semestre com o pai e outro com a mãe do outro lado do país. Pra completar o pai conta pra ele que só se casou porque a moça estava grávida, não porque estavam apaixonados. Ele é meio... como vou explicar... parece que já sofreu muito na vida e por isso não leva muito jeito como pai, não é carinhoso e às vezes dá patadas no Carter quando deveria dar apoio, mas não é uma pessoa ruim. Por causa desse relacionamento fracassado dos pais, Carter não acredita que duas pessoas possam se apaixonar de verdade e viver esse amor. Ele fica indignado quando Danny diz que está apaixonado. Não consegue lidar com a pressão dos colegas quando todo mundo percebe que ele e Danny são mais que amigos, apesar deles não demonstrarem nada na frente dos outros. Para completar, o pai conta que a mãe dele foi presa bem no dia em que ele tem uma competição importante e ele chega em segundo lugar. Daí em diante a gente percebe que não dá mais pra concertar.

 

Carter toma antidepressivos e chega a usar drogas. Não consegue lidar com pressão de tipo nenhum e o pai não ajuda em nada. Ele copia um trabalho de literatura do Danny porque não teve cabeça para fazer e tira um F porque o professor descobre na hora a armação. O técnico o expulsa do time de natação e nadar era a única coisa que ainda importava. Carter acaba se suicidando com antidepressivos.

 

É de cortar o coração quando Danny ouve a notícia na sala de aula, pelas caixinhas de som onde o diretor fala. Com ele a coisa foi diferente, não mais fácil, mas mais suportável. Ele levou uma surra de uns imbecis da escola, mas sacudiu a poeira, levantou e ergueu a cabeça pra seguir em frente. A mãe dele foi um doce e aceitou numa boa quando ele se assumiu e contou sobre o Carter. Não exatamente numa boa, porque a maioria das mães fica com a notícia entalada na garganta, mesmo que não diga nada. Ela engoliu o sapo, deu um sorriso e fez o que toda mãe nessa situação devia fazer: disse que Danny era filho dela e que ia amá-lo sempre, do jeito que ele fosse. Foi o que fez toda a diferença, porque quando a gente tem um apoio, uma única pessoa no mundo que não olha atravessado e oferece um abraço quando todo o mundo tá contra a gente é muito mais fácil levantar e tenta concertar as coisas que surtar e desistir como o Carter fez.

 

O filme acaba com Danny se entendendo com o namorado. Achei aquele namorado dele um cretino meio sem noção. O primeiro amor a gente nunca esquece. Algumas sensações ficavam gravadas na nossa pele, são importantes e não devem ser apagadas porque alguém imbecil sente ciúmes dessas lembranças. Quando a gente se apaixona, leva o pacote inteiro, com o passo junto. O jeito é aceitar e engolir o ciúme bobo (porque ciúme do passado é sempre bobo) e não infernizar os outros por causa dele. Enfim, o cara pareceu meio cretino, mas isso não vem ao caso. Foi um happy end, o que não acontece em 98% dos filmes com esse tema.

 

Recomendo o filme pela história, pela trilha sonora, pelas mensagens importantes que ele passa. E, como quando falei sobre Little Ashes, recomendo que preparem a caixa de lenços de papel. Segurei as lágrimas heroicamente até que as letrinhas dos créditos começaram a subir, aí não deu mais. Não sei o que anda se passando comigo. Nunca fui de gostar de filme com drama, mas estes que andei encontrando são tão bonitos que não consigo resistir, mesmo sabendo que vou cair no choro mais cedo ou mais tarde. Há qualquer toque de beleza entre as lágrimas que eles despertam. É como uma aquarela. A tinta é tão líquida e suave que as pinturas parecem feitas mesmo de água tremeluzente sobre a supercífie do papel. Há qualquer coisa de triste e melancólico na beleza das aquarelas, como nestes filmes que ando vendo.

 

Deixo cá o poster do filme, com os fofos Tye Olson (Danny) e Kyle Clare (Carter). Parabéns ao roteirista pela história, ao diretor pelo excelente trabalho e aos meninos pela atuação impecável. Cara... o Kyle merecia muito um Oscar!

 

 

Atualização: encontrei uma crítica interessante sobre o filme aqui para quem quiser ler.


sinto-me:
música: Always - Erasure


Quinta-feira, 10 de Junho de 2010
Little Ashes

Na madrugada de domingo para segunda-feira vi o filme Little Ashes (Poucas Cinzas), de 2008, que conta a história da juventude do pintor Salvador Dali e de seu relacionamento com o poeta e escritor Frederico García Lorca. Eles se conheceram nos tempos de faculdade, em uma Madri conservadora que dava seus primeiros passos em direção ao totalitarismo que a dominaria tempos depois.

 

Dali foi um gênio da pintura, isso está acima de qualquer discussão, gostemos ou não de seu estilo. E devo dizer que gosto profundamente de sua obra. É algo meio sem pé nem cabeça, um meio caminho entre o sonho e o pesadelo, entre o palpável e o fantástico, que não dá pra explicar, apenas sentir. Seus quadros me encantam além da medida. Lembram de coisas que ninguém mais no mundo ousaria relacionar com a obra de Dali (creio que ele próprio levantaria do túmulo e me daria uns tapas ao ler isso): iluminuras, lendas e contos medievais. Para mim o princípio é o mesmo. O homem medieal e Dali viam o mundo com olhos parecidos, enxergando o que seus corações desejavam. Na Idade Média, livros sobre a natureza discorriam com a mesma seriedade sobre cavalos e dragões, leões e mantícoras, medicina e alquimia. E quem acha que estou delirando ao relacionar este modo de ver as coisas às pinturas de Dali, vá até o Google e digite o nome do pintor na busca de imagens, olhe atentamente para três ou quatro de seus quadros e veja se não tenho lá alguns pingos de razão. Apesar de tudo isto, morro de vontades de torcer o digníssimo pescoço de Dali por umas e outras atitudes imperdoáveis.

 

Frederico (e dou-me a liberdade de chamá-lo pelo primeiro nome porque conheço suas obras há tantos anos que é como se sua poesia sempre tivesse feito parte de mim) foi um poeta incrível, um escritor explêndido e uma pessoa extraordinária. Encantei-me por ele desde o primeiro verso. Soava como o Noturno, de Chopin, triste, doce, indescritível. Eterno e efêmero, como o orvalho sobre as folhas ao amanhecer; porque é água, uma hora está sobre as folhas em forma de orvalho e então evapora, perde-se no ar para novamente tornar-se orvalho na manhã seguinte. Todos os poemas dele são assim, dão essa sensação de conforto e inconformismo ao mesmo tempo. O conforto de que as idéias podem fazer diferença. O inconformismo com as injustiças, com o preconceito, com a hipocrisia. Durante toda a vida ele lutou pela liberdade, do povo cigano de sua terra, das pessoas humildes, das minorias, dos artistas e intelectuais, dele próprio. O filme retrata com perfeição a pessoa que foi este escritor, em todas as suas nuances. Em  todos os seus tons de cinza.

 

Chorei quase meia hora sem parar quando o filme terminou. Tentei escrever sobre ele aqui no blog, mas as palavras simplesmente não vinham e eu não conseguia parar de chorar. Uma das últimas cenas é a execução de Frederico a mando do de um deputado católico capacho de Francisco Franco, aquele ditador filho da puta (desculpem, mas não tem outro jeito de chamar uma criatura como Franco) que autorizou um bombardeio dos nazistas em Guernica para puxar o saco de outro ditador filho da puta (desculpem de novo) tão ruim quanto ele. Fascistas são o fim da picada. Gente intolerante no geral o é, mas fascistas são piores que tudo. Começam criticando os artistas e intelectuais, passam a condenar livros e censurar obras e quando menos se percebe as fogueiras estão acessas. Primeiro vão as obras, depois os autores. A coisa é tão lenta e gradual que quando o povo se dá conta já tomou proporções enormes e difíceis de reverter.

 

É revoltante ver o que a intolerância pode fazer, pensar em quantas vidas conheceram seu fim em execuções ordenadas por governos fascistas, pelo simples fato de serem diferentes e de lutarem pela liberdade e por direitos iguais e respeitos para todos. Onde não há liberdade não há nada, porque nada importa quando não podemos ser o que somos. Frederico García Lorca foi executado aos 38 anos por defender esta idéia. Era mais perigoso com a caneta que muitos com o revólver, esta foi a justificativa do deputado que ordenou a execução.

 

Voltando ao filme, apesar de ainda querer dar uns tapas no Dali e de desprezar profundamente Franco e seus paus-mandados, eu o assistira ainda umas dez mil vezes. Logo vê-se que o filme é espanhol. O respeito para com a autenticidade histórica e a biografia dos envolvidos, doa a quem doer, denota isso. Fico grata ao roteirista, ao diretor e a todos os envolvidos por terem feito meu querido poeta tal qual ele foi, sem esforços nem invencionices para deixar sua história mais "vendável".

 

Fica aqui o poster do filme, com Frederico pensativo ao fundo e Dali e seu bigodinho em primeiro plano. E para aquelas fãs alucinadas da Saga Crepúsculo que eventualmente passarem por aqui: sim, é o Robert Pattinson que faz o Dali. Se forem assistir ao filme, ao invés de surtarem porque ele beija outro cara ao invés da sonsa da Bella, tentem entender a história do filme e aprender alguma coisa com ela. *Morde a língua antes de começar a descer a lenha em cima da Meyer e dos quilos de preconceito para todos os tipos e gostos que ela espalha por aí*

 


sinto-me:
música: Everything - Lifehouse

publicado por Mi às 05:48
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Domingo, 16 de Maio de 2010
De música e literatura

As ruas estão encharcadas lá fora. A cidade amanheceu cinzenta, coberta por um véu de cristais sem brilho porque não havia luz para incidir sobre eles. O sol escondeu-se atrás das nuvens. Parece mais frio do que realmente é e uma preguiça espalha-se pelo ar e impede de fazer qualquer coisa que preste. É domingo e só isso basta para não fazer nada.

 

Quanto a mim, contento-me em atormentar os vizinhos com o som do meu piano. Há dias que a necessidade de tocar supera a dor nos pulsos (causada por uma tendinite teimosa que se recusa a deixar-me em paz). Dias em que é preciso largar tudo, agarrar as partituras e por-se a tocar por horas à fio, deixar-se levar pela música e perder-se nela.

 

A coisa torna-se crônica quando não consigo escrever. Dona Inspiração anda a torturar-me de novo. Roubou-me as palavras e não quer devolver. Toco piano na tentativa de acalmá-la e ter de volta a capacidade de expressar no papel o que tenho claro no plano das ideias. Até agora não houve muito resultado. Será que estou a tocar o estilo musical errado? o.o

 

Enquanto não descubro a resposta, divirto-me a ler Hemingway, que sabe das coisas melhor do que eu. Deixo cá um trecho de As ilhas da corrente que lembrou-me demais a mim mesma quando tinha lá os meus seis anos de idade, porque  também me vinha esta imagem à cabeça quando falavam em pessoas loucas.

 

--Sobre o que é que Mr. Joyce conversava? - perguntou Roger a Tom Jr.

 

--Xi, Mr. Davis, não me lembro muito bem daquela época. Acho que era sobre escritores italianos e sobre Mr. Ford. Mr. Joyce não suportava Mr. Ford. Mr. Pound também lhe dava nos nervos. "O Erza está louco, Hudson", ele dizia pro papai. Eu me lembro disso porque eu pensava que "louco" significava louco que nem cachorro louco e me lembro de que ficava sentado lá olhando pra cara de Mr. Joyce, que era meio roxa, com uma pele incrivelmente lisa, pele de clima frio, e os óculos dele, que tinham uma lente mais grossa que a outra, e pensando em Mr. Pound, com seu cabelo vermelho, a barba pontuda e os olhos simpáticos, com um negócio branco meio parecido com espuma escorrendo da boca. Achei horrível que Mr. Pound estivesse louco e esperava que a gente não encontrasse com ele. Depois Mr. Joyce dizia: "É lógico que o Ford está louco há anos", e eu via Mr. Ford com sua cara grande, pálida, engraçada, os olhos claros e a boca de dentes frouxos, sempre entreaberta, e aquela espuma horrível escorrendo também pelo queixo dele.

 

--Pare de falar nisso - disse Andrew. - Senão depois me dá pesadelo.

 

--Ah, continue, por favor - pediu David. - É que nem história de lobisomem. Mamãe escondeu o livro  porque o Andrew sempre tinha pesadelos.

 

--Mr. Pound nunca mordeu ninguém? - perguntou Andrew.

 

--Não, cavaleiro - retrucou-lhe David. - É só uma maneira de dizer. Ele se refere a louco da cabeça. Não louco de raiva. Por que ele achava que os dois eram loucos?

 

--Não sei explicar - disse Tom Jr. - Naquele tempo eu não era tão pequeno como quando a gente ia atirar nos pombos do parque. Mas era muito pequeno ainda pra entender, e a idéia de Mr. Pound e Mr. Ford com aquela baba medonha escorrendo da boca, prontos pra morder, me tirava completamente o juízo.

 

Hemingway, Ernest. As ilhas da corrente. São Paulo: Abril Cultural, 1984. p.65-66.


sinto-me:
música: Whataya want from me - Adam Lambert

publicado por Mi às 20:26
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